O Sétimo Dia - A Ira dos Anjos













O PRIMEIRO DIA




Em algum ponto no universo



UMA CENTELHA de energia surgiu na vastidão do cosmo, iluminando o que antes era apenas escuridão. Nada assim acontecera em toda a história da eternidade, o que a deixou preocupada.
Ela em questão, não passava de energia cósmica concentrada. Não tinha distinção de sexo ou cor. Apenas emanava energia negra, e assim o universo era regido, de acordo com suas vontades. Vez ou outra, algumas centelhas de energia branca surgiam, mas eram facilmente destruídas e absolvidas, tornando-a ainda mais onipotente.

Mas desta vez era diferente...
Apesar de sentir o nascimento e a presença da nova energia, não pôde identificar sua origem e nem precisar sua localização, o que acabara por deixá-la frustrada. Em um milionésimo de segundo vasculhou todo o universo e mesmo assim não a encontrou. Sabia que a energia estava crescendo e se tornando poderosa depressa; o que poderia se tornar um empecilho, caso tentasse alguma rebelião, como seus antecessores tentaram.


A energia não estava escondida, e não tinha a menor intenção em fazê-lo. Nascera com um propósito: Eliminar a escuridão que controlava tudo o que era conhecido por incontáveis eras. Estivera em hibernação desde a última grande cruzada, que acabara por derrotar Chronos. Assim como a energia negra absolvia os derrotados, ela, a energia branca, aprendia com as derrotas de seus iguais.
Estava quase na hora.

Assim como um bebê, todas as energias cósmicas precisam passar por várias etapas, desde sua concepção. Geralmente, a energia está pronta para ser liberada no cosmo a partir dos 20 bilhões de anos, juntando-se, assim, ao cosmo em si, tornando-o maior e maior poderoso. 
O processo de evolução passa por três etapas básicas: A Criação, que tem duração de 6 Bilhões de anos. Nesta etapa inicial, a energia passa pelo processo de Alimentação. Surgindo num ponto esmo, ela se alimenta da energia que é emanada pela entidade suprema, que detém o controle de tudo. 
Após a Criação, o segundo estágio chama-se Condensação, onde toda a energia consumida na primeira etapa do processo se transforma em luz, e posteriormente, em consciência. Esse processo tem duração de 14 bilhões de anos.

E o último estágio é a Conversão, onde a energia se comprime e expande, dando origem a uma grande explosão, para enfim, concluir seu ciclo, unindo-se ao cosmo...
Às vezes, a energia, no período de consciência, entra em hibernação. Neste processo, a consciência adquire estágios de inteligência, e comumente, se torna rebelde. Lutam e são dizimadas pela energia suprema.

O momento havia chegado.
Com seu despertar, o espaço ao seu redor se iluminou, emitindo um estrondo assombroso. Nada em toda história teve efeito similar. Assim como a energia suprema, essa também não apresentava forma ou distinção. Era movida apenas pelo desejo de acabar com a tirania que se assentara no cosmo. Partiu em direção à carrasca, decidido a expurgá-la. Ou morreria tentando.

A energia suprema não era dotada de sentimentos mundanos, já o que o próprio mundo não existia, mas algo ruim acontecia em seu interior. Suas moléculas estavam agitadas como jamais estiveram. Pressentia que a batalha era iminente, mas não tinha tanta certeza da vitória. Seu oponente chegava rápido, extremamente mais rápido do que os outros. Tinha uma força jamais apresentada. Sabia que não poderia controlá-la. Preparou-se para o ataque...

As energias colidiram diretamente, provocando uma imensa explosão. Por alguns segundos, a luz foi tamanha que não se via nada, apenas um urro de desespero podia ser ouvido. 
A escuridão foi tragada, e o universo estava livre para começar sua jornada, agora de forma diferente, sem ditadura.

A terminar de tragar a escuridão para si, a energia dissipou-se, deixando um vazio no universo que não durou muito tempo, pois surgira uma reação em cadeia à explosão. Astros, planetas, satélites, começaram se formar, dando origem às primeiras formas e cores no universo.
O que antes era escuridão transformou-se em luz, e o Criador repousava, ganhando forma....
Esse foi o primeiro dia.

(...) Disse Deus Haja luz; e houve luz.
Gênesis 1:3






bia que estava crescendo,  se tornando poderosa, depressa, o que poderia se tornar um impecilio REGRESSÃO




Campo de treinamento


Os 4 Originais nunca haviam se visto. Por isso seus respectivos semblantes estavam tão sérios. Cada um foi retirado de sua época e enviado às celas do céu, que sempre eram vigiadas por duas sentinelas. Saíam apenas para o campo de treinamento, cada um em horário específico, não tendo contato com os demais.

Garth, o general que comandava o recrutamento dos novos anjos guerreiros, observava com curiosidade os 4 seres humanos. Não sabia o verdadeiro motivo pelo qual haviam sidos enviados para os testes, e não cabia a ele questionar, já que não era a primeira vez que mortais compareciam aos campos de treinamentos para serem transformados em soldados, contudo, aquele era um dos grupos mais estranhos que já havia sido recrutado.

Alguém tocara seu ombro, tirando-lhe a atenção. Era Isaac, um dos soldados mais condecorados do céu. Estendeu uma prancheta que continha as informações básicas sobre os recrutas, virou-se, e sem uma única palavra, colou-se a andar à mesma direção que viera.

O general leu e releu as informações algumas vezes, fazendo notas mentais de tudo que achou interessante e viável. , apesar de ser pouca coisa. Cruzou as mãos atrás das costas e em posição militar, marchou rapidamente até os recrutas, que ainda se entreolhavam sem pronunciar nenhuma palavra.
Ao verem o general estático, com olhar fixado, os recrutas giraram nos calcanhares num ângulo de 90º, estacionando eretos, com as mãos atrás das costas; os olhos encarando a expressão gélida nos olhos do comandante, que tinha a fama de ser o pior entre os piores no Comando Celeste do Céu, como são chamados os exércitos celestes.

– Vocês não sabem por que estão aqui, certo? – A pergunta tinha um tom de afirmação, que foi confirmada pelos acenos negativos de cabeça. – Pois bem. – Sua voz era grave e a cada palavra era como se trovões cortassem os céus, invadindo os ouvidos dos que estavam em terra. – A partir de agora; – deu dois passos à frente – os campos de treinamento não são mais os lares de vocês. – Anotou algo na prancheta. – Vocês – apontou o indicador para cada um – serão enviados de volta às suas existências terrenas. E quando – fez uma pausa para enfatizar as palavras seguintes – forem chamados, não terão escolha aceitar e se juntar a nós nas frentes de batalha. – Sorriu de canto ao de deparar com o olhar de perplexidade, o que levou às perguntas seguintes: - Alguma dúvida ou pergunta?

Acenos negativos de cabeça.
– Muito bem. Cassius os acompanhará daqui em diante. – Bateu continência, virando-se; e no instante seguinte, colocou-se em movimento, desaparecendo, deixando o subordinado encarregado do restante do trabalho.

Cassius, em sua forma física, apresentava postura bem menos agressiva do que seu comandante. Tinha feições serenas de quem se acostumara ao trabalho administrativo, e jamais manejara uma espada ou disparara uma arma. Seu cabelo loiro, de corte impecável, contrastava com seu uniforme militar verde oliva que usava, sem muito orgulho. Não tinha medalhas no peito nem insígnias nos ombros, revelando que não era um soldado por profissão. Desabotoou o primeiro botão da farda, exibindo uma cicatriz que ia de ponta a ponta no pescoço, e com um sorriso cordial nos lábios, identificou-se aos recrutas:

– Meu nome é Cassius. – Virou-se e começou a caminhar. – Guiarei vocês através dos campos até as câmaras de regressão. – Sua voz era suave, sem o peso da responsabilidade e o sabor da morte que o general apresentava. – Não pensem que será um tour turístico. – Falou mais confiante de si. – Vocês serão testados, e... – fez a mesma pausa que o general. – lembrem-se: vocês podem morrer. Ergueu o indicador e fez um gesto, instigando-os a caminhar. – Vamos! Eu não tenho toda a eternidade. – Sorriu, alegremente. – Na verdade, eu tenho. Mas vamos mesmo assim.

Os 4 originais colocaram-se em fila, deixando a única mulher dentre eles no final. Assim, como robôs programados, começaram a andar em sincronia, um passo após o outro. Ainda não podiam exercer o livre arbítrio, restando-lhes a única opção que lhe fora permitida: Lutar.

Instintivamente, cada um saltou para um lado, manipulando o elemento que lhe fora ensinado. A mulher reuniu todo o orvalho das plantas mais próximas, transformando-o numa esfera flutuante de água. O homem com chapéu de vaqueiro estendeu as palmas das mãos, erguendo um enorme tapete de terra. Com outro gesto de mãos, jogou a terra contra a água, formando uma mistura homogênea de barro. O adolescente detinha o controle do fogo. Encheu os pulmões de ar, e com um sopro, transformou o barro numa esfera incandescente. O homem negro de terno, com ar de diplomata, bateu os braços um contra o outro, várias vezes seguidas, formando um X, cortando a esfera em centenas de minúsculos globos. Logo em seguida, fez surgiu um furacão que englobou todas as esferas.

Todos chutaram as esferas em todas as direções ao mesmo tempo, derrubando uma centena de guardiões que os esperavam pelo caminho.

Pela visão periférica, Cassius viu uma dezena de anjos caindo de cada lado, e apesar de ter se surpreendido, não disse nada, afinal eles era os elementos fundamentais da criação, algo que não fora oferecido nem aos arcanjos. Algo gigantesco estava para acontecer, o que colocava todos, em todas as camadas do paraíso, em estado de tensão e alerta constantes.

Era fato que nos últimos 3500 anos, o mundo dos homens esteve em paz por apenas 230 anos, e nem nas duas grandes guerras modernas, o alto comando do céu interveio diretamente nos resultados.
Era um problema que os homens haviam criado. Caberia a eles resolver.

Talvez. Fosse Lúcifer novamente, mas, até onde lhe era permitido acesso, sabia que o imperador do submundo planejava a dominação do mundo dos homens, para depois investir suas tropas sanguinárias ao paraíso. E onde estaria o príncipe Miguel? Havia séculos que nem o alto escalão vira ou ouvira falar nele. As coisas haviam tomado um rumo muito obscuro, ultrapassando até a compreensão angelical.

O trajeto deveria ter duração de 60 minutos, no mínimo, porém, ao término do 33º minuto, Cassius, juntamente com os 4 originais, estavam parados diante uma porta gigantesca feita em ouro, cujo uma inscrição em hebraico, localizada no centro, indicava onde estavam.

Cassius retirou um pequeno punhal de prata do bolso e, com ele, realizou um pequeno corte na palma da mão esquerda. Aguardou alguns instantes, para que o fluxo de sangue fosse o suficiente para dar início ao pequeno ritual que abria a maioria das portas do paraíso.

 – Em nome do Senhor, eu abro esta porta. – Disse, em hebraico, posicionando a mão que sangrava no centro da inscrição, que instantemente começou a brilhar, abrindo a porta.
A luz branca que ofuscou a visão não durou mais do que trinta segundos, dissipando-se em seguida, revelando um corredor branco que se estendia por uns trinta ou quarenta metros à frente. Nas paredes, haviam portas numeradas e nomeadas.

Após atravessar o limiar da porta, ele entrou no primeiro corredor à sua direita, seguido pelos 4 originais, que vinham logo atrás. Ao longe, ouviu os trincos da porta se encaixando, lacrando-os nos edifício. Olho para a mão e constatou que o ferimento já havia sido curado, dando lugar à formação do selo de restrição.

As postas mais importantes do paraíso são protegidas por uma magia que os celestes chamam de restrição. Antes de passar pela porta, os celestes devem oferecer o sangue à restrição para obter acesso. O selo que surge na mão do anjo funciona como uma chave, dando acesso às portas internas, podendo ser rompido apenas pela porta mestra, a que originou o selo. Se outro anjo atravessar a porta mestra enquanto o selo estiver ativo, o anjo morre, passando o selo ao anjo que entrou. A saída é liberada, podendo sair uma quantidade indistinta de celestiais ao mesmo tempo.

A inscrição na porta à frente indicava que estavam no local correto. Cassius abriu a porta e deu passagem aos 4 originais para que eles adentrassem a sala de regressão. A porta atrás deles se fechou, emitindo um ruído seco que ecoou.

A sala se assemelhava a um quarto de hospício. As paredes brancas eram acolchoadas e, exceto pelas quatro câmaras em formato de pílulas, não havia mais nada ali. Cada um entrou em uma das câmaras e instantes depois, desapareceram, regressando à Terra, como homens comuns.
O destino já estava selado.
Missão cumprida. – Pensou Cassius, enquanto realizava o caminho de volta. Estranhamente não se sentiu muito bem.
Os anjos não são suscetíveis às mudanças climáticas, a não ser em leito de morte, quando seus corpos e espíritos são consumidos pelo fogo ou pelo frio, antes de regressarem à energia da natureza.
Cassius estava passando por esta experiência. Subitamente, teve o desejo ardente de retirar a farda, pois o calor se tornara insuportável. O suor escorria-lhe pela face vermelha e quente. Apoiou-se em uma das paredes brancas e, ao tentar, continuar em movimento, sujou-a com seu sangue, desenhando uma cópia exata da palma de sua mão. Foi então que ele percebeu o que estava acontecendo.
Alguém atravessara a porta com o selo ativo. – Pensou. – Mas quem?
E por quê?
Este foi seu último pensamento, antes de seu corpo ser consumido pelas chamas e desaparecer.

Após o limiar da porta mestra, o invasor aguardava a formação do selo em sua mão, e quando este se formou, ele voltou e atravessou a porta novamente fazendo o caminho de volta, e sumindo na luz. Enviou uma mensagem telepática para um de seus espiões de campo e recebeu a seguinte mensagem como resposta:
– Entendido. – Respondeu telepaticamente. – Aguardando novas instruções














O ACORDO




Porão do Receptáculo


– Você sabe que o que está me propondo é praticamente inviável, não sabe, irmão? – O anfitrião observava a face de expressões duras de seu convidado. Há muito tempo não se encontravam, e mais tempo ainda que eles não conversavam amistosamente. Percebera a cicatriz que tinha início na orelha esquerda e terminava no pomo de adão; resquício de uma longa contenda, que, de acordo com o que o convidado dissera, teria uma trégua temporária, pois o inimigo, apesar de ser extremamente numeroso, também era extremamente vulnerável. Era hora do ataque supremo, e com a ajuda do inesperado aliado, tudo se tornaria simples. Ele sorriu, amistosamente, mostrando sua marca registrada.

– Não me chame de irmão! – Brandiu. E em algum lugar, um trovão cortou o céu. As lâmpadas piscaram um segundo antes de estourarem, imergindo o cômodo em completa escuridão.

– Rude e impulsivo. – Disse o anfitrião. Sua voz era calma, sem repressão. – Como sempre. – Suspirou, e o porão se iluminou novamente, mostrando seu semblante calmo e o largo sorriso. – É isso que nos diferencia: Você quer tudo ao mesmo tempo. – Fez uma breve pausa, enxugando uma lágrima que nascia em um dos olhos. – Por isso nosso pai... – Foi interrompido.

– Nosso pai está quase morto, se é que já não está! – Levantou-se. – E a herança dele é minha. E você deveria ter mais respeito para com um príncipe. – Bateu com as mãos na mesa, derrubando corpos e garrafas, partindo-a em duas.

O irmão permaneceu calmo. Seus olhos emitiam um brilho pouco habitual. Levantou, limpando a poeira do terno impecavelmente branco. Ajeitou o cabelo, apertando o rabo de cavalo.

– Enquanto você se acha um príncipe, eu me tornei um rei. – Retrucou, virando-se. – Você, seu arrogante, é quem deveria se curvar perante mim, demonstrando respeito. E, lembre-se: você não é invencível. Só respira porque eu permiti. – Fez questão de frisar. Seus olhos inflaram. – Goste ou não, você é meu irmão, e eu o amo. – Fez uma pausa, virando-se novamente. Abraçou o irmão, que não retribuiu. – Nosso pai me exilou por amor. Amei vocês mais do que os outros. Na teoria, eles são nossos irmãos, mas não somos iguais a eles. Olhe só para nós dois: Um é príncipe e o outro é rei. Cada um com sua legião de seguidores fiéis, prontos a morrer, se assim desejarmos. – Estendeu a mão ao irmão. – Aceito o acordo, desde que os outros, principalmente Gabriel, aquele sentimentalista, não se oponha.

– Gabriel está exilado. – Ele foi direto ao ponto. – Ele não pode e não consegue usar seus poderes. – Fez uma pausa. – Uziel, por escolha própria, não tem mais voz ativa no conselho. – Seus olhos se tornaram sombrios. – Só nos resta Rafael... – fitou um ponto ermo do cômodo, como se estivesse pensando em algo.

– Que por sinal, é o mais forte e decidido de todos. – Completou a frase, instigando o irmão.
– Eu sou o mais poderoso do céu! – Rugiu. – Rafael não será páreo.
– O que e como você pretende fazer para detê-lo?

– A burocracia. – Deu um sorriso enigmático. – Não será necessário entrar em detalhes. – Estendeu a mão ao irmão. – Dê-me o que solicito e teremos a tão sonhada trégua. Divisão igual. Temos um acordo?

O anfitrião apertou a mão do irmão e disse:
– Cumpra sua parte. – Colocou a outra mão atrás das costas. Cruzou os dedos e disse: Temos um acordo.











A CÚPULA



Sala do Conselho


Desde os primórdios, após o Criador adormecer, o céu, e consequentemente, o universo é regido pelos Arcanjos, os mensageiros e cumpridores das ordens do criador. Antes de cada grande acontecimento ocorrer, os Arcanjos se reúnem na Sala do conselho e votam a favor ou contra a intervenção celeste, podendo ou não alterar o curso natural da história dos homens. Foi assim na era glacial, no cometa que extinguiu os dinossauros, nas grandes guerras, nas pestes; em todos os acontecimentos que podem mudar o rumo da história, as mãos dos Arcanjos estão presentes.


É necessário atingir 60% dos votos, favoráveis ou não à causa, para que a votação se dê por encerada. Sempre começando pela ordem hierárquica, o Príncipe era o primeiro votar, seguido por Lúcifer – quando o Arcanjo Sombrio ainda não havia sido lançado no inferno – Rafael, Gabriel e Uziel. Normalmente, a o voto de minerva era dado por Gabriel, sempre sob influência do irmão mais velho, o qual Gabriel aprendera a respeitar, admirar e depois odiar. Em raras ocasiões, Uziel, o Amigo dos Homens, nunca teve direto a voto, e por este motivo afastou-se, espontaneamente, do conselho.

A sala era composta por uma mesa central feita em mármore branco com 150 metros de cumprimento por 100 de largura. O tampo da mesa refletia a imagem de um imenso lustre que pendia do teto. Adornado por inúmeras pedras preciosas, nas lâmpadas podia-se ver em alto revelo uma reprodução do rosto de Miguel, com pequenas palavras em latim logo abaixo: Eis o Príncipe dos Anjos. Cinco cadeiras com detalhes em ouro circundavam a mesa. Em cada cadeira havia o nome de um Arcanjo Escrito.

As portas se abriram com mais barulho do que de costume, e Rafael adentrou à sala. Trajava sua armadura sagrada, a Sede de Justiça, forjada pelo próprio Criador, quando o Planeta dos homens não passava de uma espera de lava. À bainha, descansava a espada, Verdade Perpétua. Calçava sandálias de couro, e uma capa branca arrastava no chão às suas costas. O elmo da armadura estava em baixo do braço, deixando a mostra o rosto claro e olhos castanhos, sem nenhuma imperfeição. Muitos diziam que Rafael era o exemplo vivo da perfeição do Criador.

Andou lentamente, com os olhos fixos na mesa, no lugar de Miguel que estava vazio.
Em algum lugar, várias trombetas soaram, e Rafael olhou em direção a porta no instante que ela se abriu e seu irmão, o príncipe dos anjos, adentrou ao salão, iluminado pelo brilho de sua armadura dourada.

Miguel andava devagar e quase não emitia ruído, salvo pelos pequenos atritos que sua armadura provocava nas áreas de articulação. Seu elmo pendia do lado oposto ao da espada, pendurado por uma grossa corrente de ouro que servia de adorno à armadura sagrada, mas que em outras ocasiões fora usada como arma de guerra.

Avançou até onde Rafael estava sentado e, com um beijo no rosto, o saudou, se sentado em seu respectivo lugar à mesa. Seus olhos encararam o irmão por alguns momentos, tentando discernir se ele estava tentando ler sua mente. Não estava. Ajeitou-se na cadeira e, retirando a espada da bainha, pousou-a sobre a mesa, como método de intimidação.

– Vamos ao que interessa, Miguel. – O tom de Rafael era duro e seguro. Não queria ficar na presença do irmão mais do que o necessário.

O príncipe dos anjos deu um sorriso sombrio, oculto. Estava calculando as palavras que usaria, pois queria causar um grande efeito em seu irmão. Cruzou as mãos e disse:

– Meu querido e glorioso irmão. – Começou, em tom solene. – Um grande acontecimento está para mudar a história da humanidade, e eu gostaria de intervir, dizimando-os para sempre. – Fitou o irmão, ansioso pela resposta.

Rafael estava sério, mas se permitiu um sorriso sarcástico, que ecoou pelo salão, reverberando nas paredes e voltando a seu ponto de origem. Seus olhos ganharam uma coloração cinza escuro, e sua voz, antes doce e sinfônica, agora era azeda e decidida:

– Você só pode estar louco, achando que eu aceitaria ou ajudaria a destruir a criação de nosso pai, Miguel. – Gritou, batendo as palmas das mãos abertas sobre a mesa. – Meu voto é não, e como não tem a maioria necessária para aprovar sua solicitação, acho que estamos encerrando a réu...

Uma voz quase esquecida ecoou pelo salão:

– Eu voto a favor.
Rafael sabia quem era o dono daquela voz convencida. E imediatamente sacou a espada, colocando-se em posição de combate.
– Como ousa invadir nosso lar? – Esbravejou, cuspindo no chão. Um dos grandes rituais de desafio dos anjos.
– Quem disse que ele está invadindo, Rafael? – Indagou o Príncipe dos Anjos, com um sorriso maléfico. – Eu o reintegrei. –Disse.
– Você não pode! – A espada estava apontada para Miguel. – Ele é um traidor!
– Cabe a eu julgar! – O Príncipe dos Anjos retrucou. – Ele nos traiu, sim; mas eu o perdôo.
– Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui. Por favor, meninos. – O Arcanjo Caído tinha um tom cômico na voz. – Vamos logo ao que interessa. – Disse. – Eu voto a favor da destruição da humanidade.
– Você não tem direito ao voto! Você não é um de nós. – O semblante de Rafael começava a ficar vermelho.
– É aí que você se engana, meu irmão. – O Príncipe havia adotado uma expressão sorrateira. – Ele ainda é um arcanjo, e sim, ele tem direito ao voto.

Neste instante, Rafael foi tomado por um instinto compulsivo e avançou para atacar o Arcanjo Caído, porém Miguel o impediu, colocando-se à frente da linha de ataque, com a espada em punho, manejando-a graciosa e ameaçadoramente.

O Arcanjo Caído observava àquela cena com curiosidade. No início, chegara a duvidara das intenções de Miguel ao propor o acordo. Agora tinha certeza que a verdadeira intenção e maior desejo do coração do príncipe eram a completa e total destruição da humanidade. Um sorriso de satisfação brotou em sua face, e imediatamente, olhou para Rafael, afã de irritá-lo, ainda mais.

– Saía da minha frente, Miguel! – Rafael gritava como quem perdera a razão. A presença do Arcanjo Caído no céu não podia ser tolerada, e nem mesmo o príncipe dos anjos tinha autoridade para realizar aquele disparate.

– Ou o que, Rafael? – Miguel instigou o irmão a desafiá-lo. – Você me enfrentará? – Sorriu, menosprezando as habilidades e os poderes de Rafael. – Ninguém no céu ou no inferno é capaz de me vencer. – Atacou. E num movimento rápido com sua espada, desarmou o adversário, deixando-o indefeso. Sorriu. Guardou a espada na bainha e abriu caminho. – Pode ir embora, Rafael. – E disse a frase que sempre encerrava as votações do conselho: – Eu decreto esta votação encerrada. O sim venceu.
Rafael estendeu a mão aberta e a espada flutuou de onde ela havia caído. Repousou-a na bainha e caminhou lentamente em direção à porta. Fitou o Arcanjo Caído nos olhos, mas nada disse. Sabia que, com aquela decisão de seu irmão, uma nova grande guerra começaria, tanto no céu quanto na terra.
O sétimo dia estava chegando.








O LAMENTADOR DE MIGUEL




Quadra poliesportiva



Em algum lugar lá fora os sinos badalavam, informado que já passava da hora do jantar.
A oeste de onde o grupo se reunia, em meio as arquibancadas vazias e decrépitas, um tambor queimava, exalado um odor de carne pobre, sendo a única forma de calor que os moradores teriam naquela noite. Um pouco mais afastados do grupo principal, dois homens conversavam pacificamente.


– Príncipe, eu não tenho boas notícias. – As rugas de seu rosto de adensaram com a preocupação, ao contrário do rosto do outro que era jovem e desprovido de qualquer imperfeição. – O Lamentador me informou que se você prosseguir, perecerá. – Fez uma pausa, olhando para os lados com expressão de quem contava um segredo a um confidente. Continuou: – Nunca se deve confiar neles. –Pigarreou com cara de nojo.


– Sabe quantas vezes os lamentadores já me disseram isso, Israel? – Seus olhos eram profundos e imersos em pensamentos obscuros. – Não precisa responder. – Fez um sinal com o indicador, quando o outro estava prestes a responder à indagação. – Não sei o que contam a respeito deles, mas eu sou o príncipe, tenho mais soldados do que consigo me lembrar e não será um banido que me dirá o que posso ou não posso fazer. Eu...

Foi interrompido.
– Cicatriz feia essa, hein, amigo? – Disse um homem barbudo e corcunda que se sentara ao lado deles. – E que cicatriz mais estranha essa sua. – Concluiu, observando com atenção cicatriz que nascia na orelha e terminava no pomo de Adão.

O príncipe sorriu delicadamente e limitou-se a dizer:
– Ferimento de Guerra! – Encarou Israel, mandando uma mensagem telepaticamente a seu soldado, que se levantou, pediu licença e saiu a passos largos.
– Guerra? – Indagou o homem? – Serviu onde? – Ainda observava a cicatriz. – Você me parece muito novo para ter estado em uma guerra! Quantos anos têm? – Levou um cigarro á boca, e ao perceber a inquietação do outro, perguntou, sarcasticamente: – Você não se importa, não é, amigo? – Acendeu e deu uma longa baforada, soltado a fumaça logo em seguida.

O príncipe meneou negativamente a cabeça.
– Que bom. – O barbudo sorriu. – Tem uns maricas por aí, que não podem ver um cigarro a quilômetros que já começam a falar na nossa cabeça. Você não é desses, não é? – Bateu com a palma da mão aberta no ombro do ouvinte. – Mas onde você serviu mesmo? E quantos anos têm?
– Tenho mais anos do que qualquer outra coisa que já existiu neste planeta. – Sua voz era firme e seus olhos adquiriram um tom azul quase cristalino. – Aliás, sou quase tão velho quanto o próprio universo e ainda sou jovem perante a eternidade. – Levantou-se. Caminhou em direção ao homem e tocou-lhe na base do crânio, bem próximo a coluna. Combati na primeira grande guerra antes mesmo de o conceito de guerra existir entre vocês. – Afastou-se e quando terminou de descer a última arquibancada, gritou para os outros: – Acho que aquele homem precisa de ajuda. – Apontou para o barbudo das arquibancadas e continuou andando em direção à saída.

Ao atravessar o limar da porta, avistou Israel mais a frente, perto da grade que delimitava o perímetro.
– É por essas e outras que eu os detesto tanto. – Disse ao soldado.
– Eu entendo, Senhor. Também me sinto assim em relação a esses macacos. – O ódio em sua voz tão logo surgiu, dissipou-se. – Tudo será arranjado, meu senhor. Já entrei em contato com o Lamentador que lhe indicará o melhor caminho a seguir.
Um grito de pavor ecoou através da quadra, seguido por outros que logo se uniram em uníssono numa mistura de medo e morte. Poucos segundos após, todos os sons cessaram, exceto pelo crepitar das chamas no tambor.

– Você Está bem? – Indagou um dos moradores de rua que observava o martírio dele. Tocou-lhe o ombro, tentando virar seu rosto. E quando o fez, imediatamente, tudo o que havia sido ingerido nas últimas duas horas regurgitou em um jato, manchando a roupa.

Outros vieram e, ao fixar os olhos no homem, tiveram a mesma reação.
O primeiro homem a tocar o morador, sentou-se para tentar se limpar, quando de repente sentiu uma forte dor na cabeça que o levou ao chão. Seus olhos ardiam e um líquido viscoso saía de seus orifícios. Por um breve instante, lembrou-se do homem que estava com a face derretida. Olhou de relance para ele e viu que não era a penas a face, mas o corpo dele estava se liquefazendo. Implorou por ajuda. Os outros vieram e tentaram fazer o que podiam, mas nada poderia ser feito.

Como um efeito dominó, um por vez, todos tiveram o mesmo destino. Agonizando e implorando pela vida, até não restar nada além de um líquido vermelho exalando uma fumaça fétida.

Lá fora, os dois se entreolhavam com um sorriso maldoso de canto em cada um.
– Pena que aqui meus poderes são limitados. – Fez uma pausa, ajeitou a roupa imunda, com uma cara de nojo, e prosseguiu: – Os teria feito sofrer mais. – E sorriu malignamente. Pôs-se a caminhar. – Venha, Israel. Preciso tirar essas roupas, não é assim que um supremo governante deveria se vestir.
 – Concordo, meu senhor. – O soldado limitou-se a dizer. E começou a andar com as mãos nos bolsos, com olhar esperançoso.

Em algum lugar, entre as copas das árvores, uma mensagem telepática acabara de chegar.
– Entendido. – Respondeu telepaticamente. – Aguardando novas instruções. 






O LAMENTADOR DE RAFAEL
Monte Everest


Poucas são as pessoas que subiram ao ponto mais elevado do planeta e retornaram vivas. Os efeitos da altitude, apesar de previsíveis, quase nunca podem ser controlados, e a natureza conta como efeito surpresa. Às vezes, um dia calmo se transforma em noite tempestuosa e vice-versa.

Para Rafael, este não era um problema. Um minuto e meio atrás, estava no pé da montanha, olhando para o alto, sem muita certeza do que faria a seguir. O Destemido, como fora chamado, em tempos longínquos, pela cúpula; naquele momento, tinha medo. Um sentimento pura e unicamente mortal havia chegado às maiores esferas do universo.

– Entre, Rafael. – A voz ecoou através de uma gruta, alguns metros abaixo do cume. O vento uivava e, com ele, a voz uivou também, clamando pela presença do arcanjo. – Eu sabia que você viria. – O eco produziu segundas, terceira e quartas vozes dentro da gruta, dando a impressão de que uma pequena multidão aguardava ansiosa por sua presença.

O Arcanjo Destemido recolheu as asas às costas e atirou-se do cume, aterrissando em pé ante a entrada da gruta coberta de neve. Lá de dentro, provinda uma energia mística fortíssima, fazendo Rafael se lembrar de tempos inglórios, de duelos e mortes passados.

Pé ante pé, adotando uma postura militar, o Arcanjo adentrou a gruta, e após dez metros, teve que adaptar à escuridão que dominou o local. Fez uma curva à direita, entrando num beco sem saída. Estacou diante da parede e desferiu um poderoso e implacável soco, abrindo e revelando uma passagem secreta.
– Não estou aqui para joguinhos! – Brandiu. Sua voz ecoou, reverberando nas paredes e retornando aos seus ouvidos como o zumbido de uma mosca irritante. Estalos percorreram as paredes adjacentes e as rochas trincaram. A estrutura havia sido comprometida e a qualquer momento poderia desabar.

– Tudo bem, Arcanjo. – Disse uma sombra que aparecera mais a frente. – Você terá sua reunião.
– Pois bem, então se revele. – Rafael ordenou, e as rochas estalaram novamente.
– Quem sou eu para recusar o pedido de um arcanjo? – Disse o Lamentador, e então se revelou.

Assim como os anjos, os lamentadores são seres celestiais. Incumbido da habilidade de prever o futuro, têm o dever moral de nunca interferir no curso da história. Não raro, são consultados pelos seus respectivos Arcanjos para que revelem os rumos que as guerras podem seguir.

Os que se opuseram às ordens dos Arcanjos foram mortos, restando poucos, espalhados pelo mundo. Assim como os anjos, os lamentadores são capazes de suprimir suas auras, a fim de se esconderem e se protegerem dos inimigos.

Entre os lamentadores, existe a classe dos S’s (Sete Selecionados). São sete lamentadores que estão conectados aos Arcanjos, nunca podendo de esconder deles; tendo que responder ao chamado sempre que for necessário. Nenhum dos S’s pode prever o futuro do Arcanjo comandante, apenas ter um vislumbre; uma pequena porção dele, o que normalmente não era de muita utilidade, mas naquele momento, era tudo o que Rafael dispunha. Teria de servir.

– Aproxime-se. – O Arcanjo ordenou.
Como que imerso das sombras, o lamentador surgiu como uma figura apática e esquelética, com os olhos fundos e várias tatuagens em seus braços e pernas. Apesar do frio, trajava apenas uma bermuda velha e uma camisa caqui, rasgada em diversos lugares. A careca reluzia ao se encontrar com a luz.

– Aqui estou. – Disse, em tom solene e respeitoso, parando diante de Rafael.
Este se sentou e começou a narrar a história da Cúpula e como Lúcifer havia aparecido e votado a favor do extermínio da humanidade. Seu semblante demonstrava profunda aversão e vergonha para com seus irmãos, pela escolha que fizeram.

O lamentador do Arcanjo escutou, cientemente, e, ao término, nada disse por longos minutos. Precisava deste tempo para se concentrar e pensar em quais seriam as conseqüências, e precisava meditar para ter as visões sobre o futuro.

Os minutos se foram e as horas passavam, e quando o lamentador começou a falar, sua voz era um rufar de tambores, convocando todos a guerra:

– Você precisa encontrar o anjo chamado Jonas. – Disse. – Dê a ele a missão de encontrar os 4 Originais. Logo em seguida, leve-os até o campo de treinamento. Garth se encarregará deles...
Ambos, o lamentador e o Arcanjo, conversaram por horas e quando o arcanjo saiu da gruta, uma tempestade de neve caía ferozmente. O vento ululava, trazendo consigo o frio do Evereste. Mas, nada daquilo tinha muita importância. Rafael tinha uma missão, e deveria cumpri-la, pelo bem dos homens.

Fechou os olhos e respirou profundamente, concentrando sua energia, e em poucos instantes suas duas asas, mais brancas do que a neve, surgiram prontas a alçar vôo. Ele se jogou da montanha e voou o mais rápido que conseguiu. Não tinha tempo a perder, pois a humanidade e todo o universo dependiam do sucesso da missão que o Lamentador lhe descrevera. Precisava encontrar o anjo chamado Jonas.






O QUARTO MUNDO



Café Italiano

Rafael estendeu um envelope pardo, lacrado com o selo do Império Angelical, ao anjo sentado à sua frente. Ele o guardou sobre o, sobretudo cor de areia e assentiu afirmativamente. Por um instante, tudo e todos que estavam ao redor congelaram, e quando tudo voltara ao normal, o anjo fitava seu líder com medo e compreensão. Se aquele vislumbre do futuro fosse real.
E era! Porque Rafael mentiria?
(...) estavam ficando sem tempo. Tinha que agir depressa.
– Sabe por que eu te escolhi, Jonas? – O olhar de Rafael era fixo. Sua voz imitava um coral.  – Porque você é um dos poucos, se não o único que pode concretizar esta tarefa.

Jonas observava os transeuntes. Já podia sentir a importância da missão.
– A obra de nosso Pai pode, e vai, deixar de existir. – Rafael argumentou. – É o nosso dever.
– Concordo, meu senhor. – Jonas tinha uma expressão de medo no rosto. – Mas... – fez uma pausa, escolhendo com extrema cautela as próximas palavras. – medir forças com o príncipe Miguel? – Deixou a pergunta no ar. – Não teremos chance. Aqui, no mundo dos humanos, nossos poderes são suprimidos. – Gesticulava desesperadamente.

O semblante de Rafael não se alterou. Disse algumas palavras em baixo tom e o mundo à sua volta congelou. No instante seguinte, os celestes desapareceram, reaparecendo poucos milésimos em seguida no espaço, como formas de energia.

– Que lugar é este? – Jonas Perguntou, telepaticamente.
– Eu o chamo de Quarto Mundo. – Respondeu. – Esta dimensão fica alem da nossa. Nem mesmo Miguel a conhece.

Ao se desprenderem de seus invólucros carnais, as almas passam por alguns estágios de purificação, podendo, ao término, ascender ao paraíso ou decair ao abismo. A etapa inicial acontece logo após a morte física, quando a alma deixa o corpo, e ruma para o quarto mundo, e lá permanece em descanso até chegar o momento do julgamento.

Já prevendo o que seu anjo guerreiro perguntaria, Rafael disse:
– O próprio Criador me incumbiu da missão de resguardar e proteger este lugar, revelando-o apenas como último recurso desesperado para salvar os homens.

– E como este Quarto Mundo é capaz de salvar os homens? – Indagou, cético.
– Olhe para além, no infinito. – Rafael disse. – Aqui o Quarto Mundo é outra dimensão, mas reflete na Terra como uma película que envolve todo o planta. Tudo o que precisamos fazer, é rompê-la, e do restante, o destino se encarrega. – Dito isso, Rafael fez com que ambos regressassem ao café onde estavam. Quando voltaram, estavam exaustos pela viagem.


Rafael lhe estendeu a mão, num gesto de cortesia. Tentou forçar um sorriso amistoso, mas não obteve êxito. Observou Jonas se levantar e sair a passos largos. Sabia o que afligia o âmago de seu comandado, assim como sabia o que afligia seu próprio coração.

– Às vezes, nem a eternidade é para sempre, meu amigo. - Disse a si mesmo. Olhou para os lados e quando o aperto em seu coração e tornou insuportável, uma lágrima brotou-lhe à face.
Pela primeira vez, desde o princípio, um anjo chorou.





ABNER, O PRIMEIRO.
Sala de Visitas

(...)
A revelação deixou Jonas momentaneamente atordoado.

– Você não é o primeiro a me procurar com esta conversa de guerra celestial. – Relembrou as palavras de Abner, o primeiro dos quatro originais.

O cheiro de café recém coado o trouxe de volta à realidade. Ele ficou a observar Abner, um homem alto, de porte atlético, na casa dos 40 anos, sentar-se elegantemente e saborear sua bebida, que para Jonas tinha um gosto intragável. Reparou que Abner também o observava com certa curiosidade, e como não era capaz de ler sua mente, foi forçado a perguntar:

– O que tenho que fazer para você acreditar em mim? – Os olhos negros de Jonas se tornaram suplicantes. Por um breve momento, o sorriso que Abner exibiu o deixou desconcertado. Havia alguma força bruta naquele homem, talvez datada do início dos tempos, que forçava Jonas a ficar por perto, por mais que, naquele momento, ele desejasse nunca ter aceitado a missão que Rafael lhe propusera.

Colocando a xícara sobre um pires e logo em seguida, pousando-os sobre uma mesa de canto, Abner ajeitou os longos cabelos que já exibiam tons grisalhos em alguns pontos. Sorriu e disse:
– Meu caro, Jonas – começou, com as mãos cruzadas entre as pernas. – Se você diz que é o que diz ser, que sou eu para não crer em sua palavra? – Gargalhou, sarcasticamente. – Mas, se você me mostrasse algo que só um anjo poderia ter... – fez uma breve pausa, deixando a frase no ar. Acreditou que naquele momento o homem que dizer ser Jonas, um anjo enviado, levantaria e iria embora. Mas, para sua surpresa, não foi isso que aconteceu.

Jonas simplesmente assentiu e levantou-se, em silêncio, retirando o sobretudo e, logo em seguida, a camisa preta, exibindo o tórax e abdômen com muitas cicatrizes e marcas, resultados de várias guerras travadas. Fez algum esforço e após alguns minutos, suas enormes asas brancas emitiram luz que resplandeceu por toda a sala.

– Acho que apenas os anjos têm asas tão brancas quanto estas. – Jonas disse, visivelmente cansado devido ao esforço, apontando com os polegares às costas. Expor as asas sem estar em combate é uma tarefa árdua e exaustiva aos celestes, já que consome parte de sua energia vital. Tentou esboçar um sorriso, mas não conseguiu. Desabou, desmaiado.


Então, ele sonhou. Pela primeira vez.
O barro ganhava forma, mas ele sentiu que ainda faltava alguma coisa, o essencial. Depois de muito refletir, percebeu o que estava errado. O que faltava era a alma.

 Assim como os humanos, os anjos também nasceram do barro. Apenas os componentes utilizados não são os mesmos. Aos anjos, o Criador concebeu os elementos da natureza como força vital. Aos Arcanjos foram dadas as forças do universo. E ao homem, a última das maiores criações do Divino, foi dada a alma.

Após retirar uma fração de sua própria essência e injetá-la no coração do protótipo de barro, o Criador soprou-lhe as narinas, dando-lhe a vida.
Neste instante, enquanto o Criador regozijava, em contemplação, os Arcanjos se entreolharam, mas nada disseram.
Com um sobressalto, Jonas acordou e sentou-se na cama, com o suor cobrindo grande parte de seu rosto. O líquido havia desenhado sua silhueta nos lençóis finos e gastos.
Do outro lado do quarto, um relógio antigo marcava a hora, e o barulho do pêndulo irritou o enviado de Rafael. Ao olhar pela janela, viu que o sol já nascera, e presumiu que dormira por pelo menos oito horas, e ainda sentia-se indisposto.

Abner bateu à porta e adentrou ao quarto. Trazia consigo uma bandeja de alumínio que continha uma xícara de café e alguns pães especiais. Deixou-a ao lado da mesa de cabeceira e retirou-se, retornando poucos minutos depois com outra bandeja abastecida de maneira similar à primeira. Sentou-se na beirada da cama e iniciou o diálogo, ao perceber que Jonas não comera.

– O que foi, meu caro? Anjos não precisam comer? – Sorveu um gole do café,
Por um breve instante, Jonas fitou Abner nos olhos. Suas mente ainda estava confusa e seu corpo não respondia aos seus comandos. Prometeu a si mesmo que jamais retiraria suas asas novamente se não estivesse em batalha.

– Não é exatamente isso, Abner. – Conseguiu dizer, com um pouco de esforço. – Nós, os celestes, apenas necessitamos de alimentação quando estamos feridos. O problema é que eu não consigo me movimentar.

Abner exibiu uma expressão de complacência à situação de seu novo hóspede. Deixou sua bandeja de lado e pegou a bandeja destinada a Jonas.
– Se queria comida na boca, era só pedir. – Exibiu um sorriso, e instantaneamente, ambos caíram em risadas.

Após duas horas conversando resumidamente sobre os eventos que estavam ocorrendo e os que estavam para ocorrer, Jonas e Abner se sentiam mais à vontade um com o outro. E Jonas contou-lhe a missão da qual fora incumbido. Pediu a Abner que retirasse os arquivos dos quatro originais do bolso de seu sobretudo, e Abner o fez.

Jonas o observou com curiosidade. Sabia que ele era o escolhido, segundo as palavras do Arcanjo Rafael, mas aprendera com os milênios de sua existência, a desconfiar do mais confiável – fora assim que os anjos foram traídos. Fizera um teste com Abner e ele passara. Se o terreno não tivesse nenhuma ligação espiritual com o céu, ao tocar os envelopes, ele teria sucumbido em chamas negras, já que os documentos eram protegidos, e apenas os celestes eram capazes de segurá-lo com as mãos desnudas. Jonas sorriu, Estava no caminho certo. Uma centelha de esperança surgiu em seu coração, e, inexplicavelmente, sentiu orgulho do terreno, tal qual um pai sente pelo filho mais querido.
– Abre esse primeiro e veja se reconhece essa mulher na foto. – Disse Jonas, e o resultado fora o mais positivo possível.

Abner rompeu o selo celestial do envelope e ao retirar a foto da mulher seus olhos ficaram brancos, uma explosão de energia tomou conta de seu corpo e foi emanada pelo quarto, pulverizando todos os móveis, exceto pela cama onde Jonas assistia, satisfeito, o resultado. Os poderes do Primeiro Original despertaram.

Tão rápido como surgiu, a energia dissipou-se. E por um momento, Abner colocou as mãos em forma de concha nas têmporas e ficou em silêncio. Quando se colocou a falar, sua voz já não era mais a mesma. Havia um tom de urgência e certezas, e seus olhos demonstravam que, enfim, ele havia realmente entendido o que estava acontecendo. Andou rapidamente até a cama onde Jonas estava e disse:
– Nunca vi esta mulher em minha vida – era verdade – mas, sei exatamente onde encontrá-la. – Olhou para o relógio e constatou que faltavam pouco para as dez da manhã. Saiu correndo o quarto e voltou com um laptop já aberto em um site de uma companhia aérea, finalizando a compra de duas passagens.

– Onde estamos indo? – Indagou Jonas.
– Ela está a caminho das terras do Egito. – Disse. – E como eu já havia lhe alertado, você não é o primeiro a me procurar a respeito dessa guerra celestial. – Fez uma pequena interrupção em seu discurso, para que Jonas chegasse a mesma conclusão que ele havia chegado.

Jonas levantou-se rapidamente, vestiu o sobretudo e saiu do quarto. Suas forças estavam completamente restabelecidas. Vinte minutos depois, Estavam a caminho do aeroporto.
No decorrer do percurso, Abner quase não disse nada, e Jonas não o forçou a falar. Podia imaginar como fora a experiência do companheiro, e que poderia acarretar em seqüelas que o perseguiria até o fim de sua existência carnal.

– São quatro, não é Jonas? – Abner disse tão inesperadamente, que Jonas não entendeu o sentido da pergunta. – Os Originais? São quatro, não são? – Abner repetiu, com um tom de impaciência.
– São. – Jonas limitou-se a dizer. Não queria sobrecarregar a mente do terreno.
– Pois bem – Abner mantinha os olhos fixos a estrada. Estavam a menos de um km do aeroporto.

Cerca de uma hora depois, quando já estavam embarcados, o comandante da aeronave informou-lhes o destino e pediu para que todos os passageiros apertassem os cintos, pois o avião decolaria em breve. Os motores rugiram como um bando de leões famintos, e as turbinas começaram a girar. Em poucos instantes, o país ia ficando para trás.

Jonas, que estava sentado à janela, divagou:
– É a primeira vez que alço vôo desta maneira. Um pouco impróprio a um anjo, não acha? – Olhou para Abner.
– Não estou me sentindo muito bem. – Tinha uma expressão cansada. – A lateral de meu corpo está doendo.
Jonas sabia o que aquilo significava, e mais uma vez, sentiu-se contente.
– Porque você me perguntou a respeito dos Quatro Originais? – Estava tentando iniciar uma conversa, pois como Abner o avisara, a viagem seria longa.
– Ah, aquilo? – Abner fitou Jonas. – Eu sei onde encontrá-los. – Fez uma pausa. – Todos eles. – Concluiu.

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