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O chinelo perdido

Quando estive nos meus oito anos de idade, adorava brincar em um parque que existia perto da casa em que morava. Naquela época morávamos somente eu, minha mãe e minha irmã mais nova, portanto não era sempre que conseguíamos passear pelos brinquedos que ficavam em uma área de areia do parque. Meu brinquedo favorito era o escorregador, mas o que eu mais gostava de fazer era brincar de construir casas, castelos e buracos na areia. Certa tarde de sol, estava brincando na areia quando notei que havia alguma coisa enterrada bem profundamente, parecia algo com consistência de borracha, muito curiosa, resolvi cavar para descobrir o que havia lá. Depois de certa dificuldade, consegui retirar da areia um pequeno chinelo, ele era menor que o meu pé, azul e tinha as alças vermelhas. Muito contente com a descoberta, comecei a procurar o outro pé do chinelo, mas conforme o tempo passou, acabou chegando a hora de ir embora, escondi o chinelo da minha mãe e fui para casa com ela. Chegando em casa corri para o meu quarto e coloquei o chinelo no pé da cama e fui tomar banho, após o banho me preparei para dormir. O quarto no qual eu dormia não tinha porta, era uma casa muito simples e as paredes eram rústicas e sem pintura, mas como sempre tive medo do escuro, uma luz bem em frente a minha cama ficava acesa (essa luz ficava na direção dos meus pés, depois da porta do meu quarto) para me auxiliar a dormir. Não caí no sono rapidamente, demorei um pouco e comecei a "apagar" aos poucos, ficando num estado entre sono-sonho-realidade, que só acontece antes de dormir. Enquanto estava quase dormindo, me virei na direção da porta e vi o chinelo que eu havia deixado no chão com seu par do lado, ao observar melhor, percebi que uma figura de criança estava com o pequenino pé sobre o chinelo que eu encontrei, o outro pé calçava o chinelo desaparecido. Assustada, olhei para ele sem saber o que fazer, ele olhou para mim e sorriu, e do mesmo jeito que apareceu, ele sumiu sem deixar vestígios, levando consigo o chinelo que eu havia encontrado. No dia seguinte ao acordar, ainda tinha a impressão de ver o menino sobre o chinelo, e esta é uma memória que me assombrará para sempre. Nunca mais peguei nada sem o consentimento do dono, e até hoje (11 anos depois do ocorrido) quando conto essa história me sinto observada, quem sabe por uma criança que também cresceu, assim como eu.

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