Os Teus Filhos São Meus
É noite, mas nunca é tão tarde
como imaginamos. Havia acabado de chegar em casa. Eu não acredito em fantasmas
ou possessões alienígenas. Do que é anterior à espécie. Sempre tratei estes
fenômenos como causados de alguma forma pela nossa imaginação, pelo nosso tédio
inconformado pelo que já não é suficiente aqui.
Depois do jantar eu e a minha mulher estávamos assistindo
TV. A nossa varanda tem uma porta de vidro onde uma persiana desce até a
metade. Foi quando eu percebi o abalo do que é tão pequeno e a perguntei: “De
quem é aquele livro ali atrás da porta da varanda?”
A minha esposa então se levantou do sofá e respondeu:
“Livro?... Eu não sei!” E chegando mais perto: “Hei! Tem mesmo um livro
encostado na porta!”
Estranho, eu disse. E me levantei, abri a porta, olhei
dentro do silêncio noturno misturado ao acende e apaga azulado da televisão do
vizinho saindo pela janela. Me abaixei e peguei o que pensávamos ser um livro,
mas que na verdade era um diário escrito à caneta. E pelo o que eu acreditei ser coincidência a
luz vinda da janela do vizinho também se apagou no mesmo instante.
Silêncio... Longe... Na profundidade selvagem da noite,
motores de carros desapareciam abandonando o que é moderno; deixando apenas o
que é familiar se comprimir dentro da gente. Quando eu entrei senti um vento
passar pelo meu ombro como se antes de trancar a porta algo além do que eu
tinha nas mãos também entrasse em casa comigo. Sentamos no sofá e começamos a
folhear o diário de uma menina chamada Elisa.
Ela escrevera coisas comuns sobre a escola, uma página
depois da outra; aulas de ginástica, música, algumas notas sobre dormir no
final de semana na casa de uma amiga. Quando estava perdendo o interesse
naquelas anotações escritas com tintas coloridas descubro que na contracapa do
diário há uma abertura selada com adesivos. Retiro os adesivos e me sinto
subitamente mal. Uma angústia, um calafrio correndo pelos braços, perto do
cotovelo, a língua umedecendo os lábios - Seca. A minha mulher me pergunta se
está tudo bem. “Fiquei tonto, deixa pra lá...”, eu respondo segurando um pedaço
de papel, uma página contendo uma ortografia desleixada, diferente da anterior.
Comecei a ler;
Eu me chamo Elisa, o Diabo possuiu hoje a minha alma.
Não consigo mais comer, nem dormir. Ele ri para mim. Não gosta que eu me olhe
no espelho. Ele quer que eu te entregue este encantamento. Me pediu para que
fizesse isso de noite. E depois que você ler estas palavras eu irei lhe visitar
porque ele do fundo das paredes infernais quer a sua alma e a alma de sua
família nesta mesma noite, já! Ele está em toda parte porque o mundo para ele é
feito de paredes de vidro e por isso estás lendo esta carta, escrita por ele
que segura a minha mão, e os pelos das mãos dele me machucam e cortam os meus
dedos. Se eu não o fizer, se eu não escrever, cada dia será pior do que o
anterior porque ele está dentro de mim, e cada vez mais eu sumo de mim, eu me
escuto lá longe, afogada e abandonada no escuro,.....Leia este encantamento, é
só uma palavra, esta aqui, e que o meu senhor apareça também fora de mim -----------
LucifugeReficul-és--------------------------------
Ao acabar de ler o que estava escrito, quando balbuciei
aquele nome, no mesmo instante gritei assustado com as batidas na parede. A
minha mulher se encolheu, e depois acendeu a luz da sala. As batidas cessaram.
Será o vizinho fazendo alguma coisa? Não, não importa. Mas o silêncio estava
dentro da minha casa outra vez, e era pior do que antes, mais pesado. Não queríamos
abrir a boca.
“Ai! Olha ali!” – a minha
mulher aponta! Virei rápido e vi um vulto parado na porta da varanda. Era uma
menina. Descalça. Cabelos despenteados. Batendo no vidro. Não consigo dizer de
onde vem a luz que a contorna, porque o que a ilumina não é daqui.
-
Não abra! Não abra esta porta! – a minha mulher implorava.
-
Mas o que é isso? – as batidas continuavam mais fortes. Murros e
socos. E enquanto observávamos a menina
nos sondando do lado de fora da casa, ela chega mais perto da vidraça e abre a
boca – Polvo negro explodido na tintura de podridões submarinas.
-
Sai daqui! Sai daqui! – fiz um que vaia-te com a mão e abracei
a minha mulher tão assustada.
Fomos para a cozinha. Eu também estava apavorado; quem é
um homem corajoso diante o que é irregular? Sem um reflexo que nos apare o que
é conhecido se estranha e fica com você o tempo que for necessário violando o
segredo do que até ali era ordinário – o porto seguro com o que é comum. Eu
tinha que me recompor, eu tinha que dizer alguma coisa: “Calma! Eu vou ver!” E
caminhei de volta para a sala.
-
Volta! Não me deixa aqui sozinha! – ela falava
baixinho, nervosa.
-
Calma, não vem não. Eu vou ver se a menina ainda
está lá! Calma!
Entrei na sala caminhando com cuidado. Parei um instante.
Ninguém estava lá. A porta que dava para a varanda... Fechada. Cheguei mais
perto. Olhei em volta. Meu coração foi se acalmando. Quando me virei, de
repente, a minha mulher estava atrás de mim. Me assustei agarrado na mesma
montanha que em segundos desmorona-se com o alpinista. “Porra!” – a abracei. E
abraçados eu senti o corpo humano ser a lembrança do que nos mantêm a salvos
neste planeta. A nossa descendência, o nosso elo com o que é natural. E
abraçado à minha esposa me senti acolhido por tudo o que é humano e familiar; o
toque, a carne, o porto seguro da respiração e do contato com alguém, estamos
juntos, sim, estamos juntos, e ela chegava perto dos meus ouvidos com seus
lábios, o seu cheiro, quando uma outra voz sai de sua boca, e a minha mulher
começa a rir, e a sua risada torna-se grunhidos e enquanto ela se descabela
contorcendo-se feito uma boneca infecta, aterrorizado observo a menina que se
dizia Elisa, roendo as unhas – sentada no sofá, dentro do meu lar, da minha
casa, apontando para mim e abraçada com o absoluto invólucro do que chamamos o
Nada.
A última coisa que eu escutei naquela noite e que agora
te passo, sob a pressão destas garras, é esta mensagem;
“O seu engano foi ter saído da segurança da água, agora
terra, depois que desaprendes-te a rastejar.
E como eu, e você será,
os teus filhos também!”.
Autor: Jorge Cardoso, 21 de junho de 2016
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